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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Pra se contentar

Na minha última folga, achei que queria estar em Berlim, assistindo Metropolis remasterizada na telona montada em frente ao portão de Brandemburgo. Daí fui a praia e entrei no mar e ficou tudo bem de novo.
Hoje não é folga e não tem praia, mas hoje tenho internet wireless em casa e escrevo da cama. No ar condicionado. Tá tudo bem de novo.




E claro, fica tudo mais fácil quando vc sabe que volta pra casa em uma semana.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Leblon Tales


A Dona Judite deve ter uns 65 anos. O seu cabelo é curto e bem escovado, seus olhos cobertos por óculos escuros de aro marrom claro. Já a Dona Leonor, provavelmente da mesma idade, possui cabelos longos, talvez na altura do ombro, mas vivem presos no alto por uma "piranha". As duas pintam as madeixas de castanho, nem claro, nem escuro, talvez no mesmo salão, na esquina da Ataulfo com a Cupertino.

Dona Judite perdeu o marido há muito tempo. Foi com ele que ela se mudou para o Leblon, onde criou seu único filho. Mora até hoje no mesmo apartamento, numa travessinha arborizada da Rua General Urquiza, onde recebe os netinhos aos domingos para o lanche da tarde. Ela manteve o quarto do filho intacto, e este vez ou outra é ocupado pelas crianças em noites de sábado, quando sua nora tem dificuldades para encontrar uma folgista para a babá. Estes são os melhores finais de semana, pois no domingo de manhã logo cedo vão, avó e netos, para a praia. Ela senta-se perto do salva-vidas e, simpática, pede a ele que observe a menina loirinha de biquini verde e seu irmão no mar. Dona Judite não sabe nadar.

Dona Leonor criou seus filhos fora do Leblon, e só voltou a morar no bairro quando sua mãe faleceu. Cansada de pagar o aluguel altíssimo em Botafogo, empacotou a casa, o marido e a filha solteira, e foram todos para o barulhento apartamento da Ataulfo, em cima do salão de beleza. Ninguém se importou nada com a mudança, e todo final de semana ela recebia feliz a visita de seu fiho, que estacionava o Uno verde na garagem do prédio, e de lá caminhava até o posto 11 com a família. As visitas do filho só diminuíram dois anos atrás, quando, já viúva e aposentada, a professora decidiu alugar sua vaga de garagem para um vizinho. A filha de Dona Leonor mudou-se em 2002 para São Paulo, e aparece a cada dois meses, carregando sempre uma amiga e um sotaque forte que a mãe acha difícil compreender.
Foi nessa minha última viagem ao Rio que conheci as duas senhoras.
Para Dona Judite, que vestia uma calça verde clara bem leve, cinto marrom, e uma camisa de manga longa em seda estampada, pedi uma informação. Eu só queria o endereço da padaria mais próxima, enquanto Dona Judite queria conversar. Me contou que, a cinco blocos dali, passando a sapataria, tinha um mercado muito bom. Aquele, que não era o Pão de Açúcar, não se lembrava o nome, mas era sim, um mercado muito bom. "Como se chama mesmo? Passando a sapataria, alí, a esquerda. No fundo do mercado eles têm um setor de padaria. Tipo uma panificadora mesmo, ah, os pães são muito gostosos. Compre o de milho, minha filha. O pão de milho." Dona Judite foi tão solícita que acabou perdendo o sinal, que abriu e fechou. Acabei me sentindo mal e lhe fiz companhia por mais alguns minutos.
Dois dias depois, quase nesta mesma esquina, me sentei no banco de madeira para descansar. Segundos depois chegou a Dona Eleonor, também de cinto marrom, porém de bermuda, regata e sandália havaiana.  Sentou-se ao meu lado. Acendeu um cigarro e começou a conversar. Contou, assim sem que eu perguntasse, do sufoco na fila do Bradesco, dessa chatice de arrastão na praia no final de semana, do preço dos remédios na farmácia. Reclamou do calor e do inchaço nos pés. Falou da briga da Record com a Globo, da roubalheira que anda este mundo. Acabou seu cigarro, pediu licença, e disse que precisava ir embora, pois não queria perder a novela das seis. Não sei ao certo se na Globo ou na Record.
Logo depois me levantei, e fui comprar o meu remédio caro na farmácia. Até hoje não encontrei nem a sapataria, muito menos o pão de milho no supermercado incrível da Dona Judite. No caminho de casa, enquanto suava de calor, cruzei com mais umas 5 ou 6 senhoras, cada uma de um estilo. E me lembrei da minha infância, das férias na casa da minha avó na rua Rita Ludolf. E me lembrei dos tempos em que morei por aqui, já adulta. E senti uma saudade gostosa dessa cidade tão misturada.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Ferry Building


Talvez inspirada pela minha temporada na cidade gourmandise (e amando mais esse lado de Paris), resolvi continuar a nossa empreitada "San Francisco Bairros"

O Ferry Building não é bem um bairro, mas
 sim um prédio. Nem mesmo muito um prédio, e sim um mercado. Um mercado pra quem gosta de comida boa, orgânica, natural, "eco-social-correta". Pra quem procura produtos seletos, diferentes, raros, variados. 
Ele fica ali, no início da imponente Market Street, que corta downtown inteira com os maiores e mais modernos prédios de San Francisco. E a Market começa na Embarcadero, avenida na beira de todos os piers, praticamente abaixo da linda e gigantesca Bay Bridge. 
Sim, é lá que muita coisa acontece, como os fogos no reveillon (não, não é na Golden Gate). É de lá também que sai o Ferry, a barca que leva e traz muita gente, gente que mora do lado de lá da baía, em Marin County e trabalha em San Francisco, e gente que passeia, e gente que simplesmente transita de barco.
O prédio já foi muitas coisas, de um pomposo ferry building (literalmente) à um prédio de escritórios escondido atrás de uma freeway horrorosa, que passava em cima da Embarcadero (derrubada em 1991, por causa do terremoto de 1989). O prédio foi renovado e reinaugurado em 2003, e hoje abriga a feira dos "farmers" pelas manhãs, com barracas de lindas frutas, legumes, verduras, doces, tudo direto dos produtores. Lá também estão deliciosos restaurantes, com mesinhas externas de frente pra baía, algumas delicatessens e muitas lojas gourmets especializadas (claro que tudo super orgânico!).

É bem assim: 
Tem uma de chocolates finos. 
Uma só de cogumelos. Uma de pães (padaria é um negócio de luxo aqui nessa terra). Uma de queijos excepcionais. Uma salumeria. Uma boutique de cafés. O reino das ervas. O paraíso dos azeites. Açougue, peixaria, "oyesteria". O caviar café. O mercado fresh-orgânico-só-compro-de-pequenos-produtores. Vinhos lindos e finos, com happy hour degustação, onde as pessoas compram  o pão na padaria, o queijo na cowgril e sentam para experimentar vinhos.  Além de duas lojas incríveis de coisas para cozinha, a Sur La Table, que amo, e uma de antiguidades para culinária, uma loucura.


Vc entra á e fica louco, louco mesmo, querendo experimentar tudo, comprar a cada dia um produto diferente. Divino. Delicioso. Eba! 


PS: para ler sobre o Crissy Field, uma região bem legal de SF, clique aqui!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Au revoir

Preciso ainda de um dia para processar a volta. 

Preciso ainda de uns dois dias pra entender que passei somente duas semanas. Sério, o que são duas semanas? Quantas duas semanas na vida você acordou trabalhou dormiu assim, sem nem perceber? Quantas duas semanas na vida você viveu assim, inetensamente até o nível de exaustão máxima?

Preciso ainda de uma semana pra trancar a saudade de volta na sua gavetinha.  Foram pessoas muito queridas que revi, abracei, ri, chorei. Foram mesas de bar muito conversadas, e muito regadas a vinhos "nacionais" e comidas incríveis.

Preciso ainda de dez dias pra suprimir essa necessidade louca de agarrar o mundo que a Europa causa na gente. Foram assim as duas vezes que pisei por lá. A gente volta querendo conhecer, viajar, estudar, aprender, descontroladamente mesmo. 

Preciso ainda de umas duas semanas pra acalmar o coração. 


Paris. Ah Paris. É assim mesmo: apaixonante. Concordo que não há nada melhor que passear em Paris com os amigos. E fico muito feliz que, já que minha irmã querida escolheu um lugar bem longe pra morar, pelo menos foi . Pois assim, sou "obrigada", coitada de mim, a ir sempre. E me apaixonar toda vez.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Mission

A idéia é da Gi. Mas eu gostei. E virou uma missão, conjunta. 
Uma série de posts, bairro a bairro, com nossos cantinhos prediletos de cada um...


Começo pelo Mission. O bairro latino, onde os outdoors são em espanhol. O bairro que abriga a Misíon San Francisco de Asís, igrejinha linda, de pedra, construída em 1776,  a construção mais antiga da cidade. San Francisco é uma cidade de prédios relativamente novos, pois foi quase toda destruída pelo terremoto de 1906. Mas a igreja sobreviveu. E seu pequeno cemitério fofo também.

No Mission tem também o Dolores Park, na rua da Igrejinha. Diz a lenda que lá em 1776, os mexicanos que carregaram as pedras da igreja morro acima, chamavam a construção de La Misíon Dolorosa, dando nome a rua (adoro lendas urbanas, cultura inútil, etc).  O Dolores Park, além de uma vista linda lá de cima, fica sempre cheio de gente animada, tem pouca criança gritando e muito cachorro. Tem um sorvete cotadíssimo na frente, com sabores incríveis e uma fila gigante. Fila tem também no famoso croissant alí ao lado, na 18 com a Guerrero. Confesso que nunca consegui comer nenhum dos dois, pois sempre me faltou paciência, mas já ouvi maravilhas.

A Valência Street é a minha favorita, com suas lojas, brechós e galerias alternativas, onde você até encontra quadros dos amigos.  No Mission fazem abaixo assinado pra não chegar a GAP, adoro! A 16th e a 24th também são incríveis. Pra comer bem basta querer. Além de centenas de taquerias (uma a cada esquina), tem excelentes restaurantes: paquistanês, espanhol, grego, francês, boliviano, cubano, japonês, pizza, vegan, veggie, etc. De caro a barato. E à noite (antes das 2, claro!)  bares, movimento, gente na rua, amo! 

A rua principal, a Mission Street possui milhares de lojas onde frutas e legumes são mais baratos, camarão custa o preço de carne moída no Brasil (e é fresco), açougues lembram os de Pinheiros, e quinquilharias com cara de 25 de março vivem entulhadas em espremidas prateleiras. Tem também uma lojinha muito cara que vende pão de queijo Forno de Minas, requeijão, bis e guaraná. Pra completar, nas pequenas ruelas paralelas há murais lindos, pintados nas paredes das casas, nas gastas cercas de madeira, nas portas e janelas. 

Essa coisa de escolher 5 pontos prediletos achei uma idéia, minha mesmo, muito boba. Ainda não sei se decidi certo, e passei quase uma hora torturando a minha cabecinha. 

Paxton Gate - lojinha de coisas estranhas e plantas lindas. Fósseis, caveiras, desenhos e livros, uma ótima seleção de coisas que dá vontade de ter em casa.


Vintage store - dois andares de móveis lindos, vintage, usados e reformados (ou não). Coisas incríveis, tudo caríssimo mas delicioso de olhar. 


Radio Habana Social Club - Difícil estar aberto, abre quando quer, pro que quer. Mini bar cubano, comida boa, muita legal, cheio de tralha, muito de verdade.


Ritual Coffee Roasters - Um café que realmente serve um bom café. Aqui nos EUA é quase impossível. No fundo do bar sacos e sacos de grãos cheirosos, que você pode aproveitar em uma desgustação de cafés em copinhos de vidro. Um monte de gente jogada no sofá, "lap-topando", por horas e horas.


Mini salinha de cinema independente - a maioria das coisas passa em vídeo, numa telinha mini, com cadeiras desconfortáveis. Mas compartilho bem essa vontade-louca-anti-indústria de sobrevivência.

Ufa! Agora só preciso controlar esse desejo de largar tudo, sair correndo e passar a tarde por lá!

quarta-feira, 4 de março de 2009

The Class


Acabo de voltar do cinema.

Logo que o filme acabou, me veio aquela sensação sufocante de necessidade de ar, uma claustrofobia louca. Foi então que descobri o título original do filme, Entre les murs (entre as paredes), entre os muros daquela escola onde havia passado as últimas 2 horas e 8 minutos. 
Junto veio um prazer inexplicável de ouvir o silêncio dos créditos. E me lembrei dos barulhos de uma escola, do ecoar de centenas de vozes em corredores, salas com pequenas janelas e pátios murados - pois está pra nascer o cidadão que vai construir uma escola considerando estas necessidades acústicas.  

The Class, pra mim, é um filme bom, um filme que "funciona". Acho que perco mais tempo no meu mestrado "lutando" contra as imposições do cinema industrializado de Hollywood, do que realmente produzindo. Se eu apresentasse na minha sala de aula, as 7 primeiras páginas deste vencedor da Palma de Ouro em Cannes, eu seria, no mínimo, linchada. Ouviria coisas do tipo: "isso se alguém ainda continuar na sala de cinema", ou "acho que jamais pagaria $11,50 para ouvir estas pessoas se apresentado", "e elas nem são seus personagens principais", "como assim você quer ter onze antagonistas" , "mas a primeira pessoa a falar não é o protagonista", "não funciona, o hook não está na página 5", e mais um milhão de "know the rules before you break them". 
Humpf, será que este povo já ouviu falar da tal sétima arte? 

Lamúrias à parte, orgulho ferido de um primeiro ato lido e fortemente criticado (ontem) à parte, Entre les murs é sem dúvida merecedor de palmas e mais palmas. Uma verdadeira aula de desenvolvimento de personagens, uma enxurrada de conflitos internos transferidos para a tela. De uma inteligência impressionante, cativante, irritante, pesada, engraçada.
Mr. Marin,  Wei, Souleymane, Boubacar, Esmeralda (até vc, Esmeralda que eu quis "socar" o filme todo), Khoumba, Louise, e todos os outros . 
You are amazing characters, wish you were all mine!


segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Cinema



Sempre que vejo um filme muito bom fico absurdamente feliz.  Muda qualquer humor, me dá energia, vontade de criar, trabalhar, produzir. 

Ultimamente vi três (três, incríveis, no cinema, em uma semana - muita sorte), que não posso deixar de dividir:

1. Let the right one in -  (Låt den rätte komma in) - Este é mais difícil de gostar, é filme de vampiro, mas juro que achei MUITO bom. Muito bem filmado, casting incrível, roteiro bom, fotografia gélida, cansa um pouco, mas é bem bonito. Queria ter feito esse... :-). Só não assistam ao trailler.

2. Rachel Getting Married - Doce e amargo, passivo e agressivo. Melhor diálogo dos últimos tempos, queria Jenny Lummet (roteirista) para comentar todos os meus roteiros da vida! Muito bem dirigido, elenco muito bom. Rí muito, chorei muito, e saí arrasada de saudades da minha irmã. 

3. I've loved you for so long (Il y a longtemps que je t'aime)- Triste e bonito. Um super filme de ator, muito bem atuado por sinal. Sem viradinhas no final, sem pretensão de ser "espertinho", simplesmente a história. Bem filmado e bem dirigido. Chorei horrores e, de novo, saí arrasada de saudades da minha irmã. 

ps: estranha semelhança nos cartazes... agora que percebi!